Viagens na minha terra (28 de Outubro)

(Entre texto corrido e parágrafos soltos, registo e relato pela primeira vez uma viagem na minha terra)

Hoje as viagens levam-me à capital, a idade do Discovery já não permite circulações lá pelo centro logo o meio de transporte escolhido foi o autocarro, onze euros e oitenta (ida e volta). 

São quase onze horas e na paragem, nada mudou…uns perguntam pela hora do transporte, outros queixam-se da falta de médico, das idas às cinco e até às quatro horas para o centro de saúde, mais adiante é o Sporting e o Jesus que estão em discussão. 

O objectivo da viagem é a participação numa reunião sobre o programa nacional de coesão territorial, uma ideia que em traços gerais projecta o desenvolvimento do país voltado para o Atlântico e para Espanha, ressalvo que desde a primeira moção do António Costa ao congresso do PS que tenho reservas sobre o enquadramento do Ribatejo neste desenvolvimento, que triste sina está de estar sempre suficientemente perto e ao mesmo tempo relativamente longe…

A viagem começa e recordo as dezenas, centenas de vezes que fiz este percurso de autocarro até aos 11 anos, antes de nos termos mudado de Benavente para Salvaterra de Magos, a Quinta do Ornelas, a Quinta do João Ramalho e da Tareca, a IDAL, a Vala Nova, o Sorraia, a estação…do lado esquerdo (vicio de condutor este que nos leva a ter sempre a mesma perspectiva de viagem) nada mudou a não ser a beleza dos espaços (ou talvez seja dos meus olhos e idade que já me leva a procurar, e felizmente encontrar, pormenores e detalhes que escapam a um miúdo. Mas, se à esquerda na mudou à direita piorou…fechou a estação, espaço de vida e de, muita poluição, parece hoje abandonado. Não é uma porta velha das que gosto, é sim um portão gigantesco mas carregado de história de e da vida, se há quem nem às paredes confesse estas tinham com toda a certeza centenas de amores, encontros e desencontros para contar. 

Ainda em Benavente a última paragem da vila, e paramos mesmo, é Santa Cruz, o meu destino das tais centenas e centenas de viagens entre Salvaterra de Magos e Benavente.

Ali, por cima das bifanas, vivi e cresci, a melhor recordação que tenho destes tempos são as da vizinha Clotilde e do Zé Maria que tinha um boca de sapo espectacular. 

Daqui para a frente Samora Correia, Porto Alto, Vila Franca e Lisboa, foi viagem que também fizemos muito, mas não tenho alcance de memória, aos dezoito meses fui para a minha terra, mas continuamos a viver em Lisboa até 1979.
Não sei se destas viagens e de outras, olho para o arranha céus, o primeiro numa aldeia que hoje já é cidade, modéstia à parte com um bom contributo meu, com a ajuda do Nelson Baltazar foi possível consensualizar com o Vasco Cunha e com a Luisa Mesquita a elevação a cidade de Samora Correia, sem esquecer a Ana Casquinha e o António Louro, que me deram as bases do conhecimento sobre esta terra, que como é óbvio também a sinto um pouco como minha.

Entretanto passamos pelos bombeiros, hoje já em condições excelentes, não sem antes homens como o Ferro tenham tido uma luta quase titânica. 

No autocarro, também, nada de novo…a vizinha do lado dá ao pé ao som da música que lhe entra em altos berros pelos ouvidos a dentro, a vizinha da frente lê um livro, os vizinhos de trás dormem, lá mais à frente usam-se agulhas para tricotar, renda e pano para fazer bicos, ou outra técnica qualquer.

E lá vamos nós a caminho de Vila Franca, entre a Leziria e o Estuário de Tejo é até perder de vista…

…vista que traz está cidade que é Vila, Franca diga-se de passagem, e traz também a incompreensão deste desenvolvimento carregado de betão e de costas voltadas para o rio.

Da ponte, uma das mais velhas que nos une, recordo as histórias do Antão mais velho, Mário claro está (somos todos: Mário, Joaquim Mário, Nuno Mário e João Mário a seguir há Maria claro está) sobre as idas para a tropa de bicicleta e as longas esperas pelos carros os únicos que faziam a embarcação de passagem navegar.
E acaba aqui o meu, nosso, Ribatejo, na margem norte do Tejo, apesar de mais à frente ainda haver Ribatejo na designação de Alverca é aqui que ele acaba, imponente e histórico! 

Agora até ao Campo Grande é A1 e 2. Circular, alcatrão e betão sem história, sem raizes, sempre cheio de gente sem rosto, que passam por nós e pelas quais passamos sem olhar, sem ver. Ainda que se passe pelo Aeroporto, Rotunda do Relógio, Avenida Gago Coutinho, Avenida Estados Unidos da América, Entrecampos e, e, e…escapa-me agora o nome da via que nos leva até ao último reduto dos lagartos que às vezes, poucas felizmente, são leões. 

Se as viagens são descobertas, sim é possível fazer uma viagem Salvaterra de Magos – Lisboa sem fumar. 

Agora, vamos lá então descobrir as “confusões” do metro…so far so good, cartão Viva carregado, o meu e o do vizinho, que lamentando-se dos tremeliques das mãos e de lagrima do olho me pediu que o ajudasse…então meu amigo já não consegue enfiar? Perguntei-lhe na esperança de ver um sorriso, “seu malandro” respondeu-me ele já de sorriso, talvez assistindo à cena a seguir uma jovem mãe, com um carrão, sim não era um carrinho de bebé, era enorme, pede ajuda para subir as escadas, os elevadores não funcionam…que porra está, nada funciona quando tem de funcionar, reduzir a questão das acessibilidades e mobilidade aos cidadãos portadores de deficiente é desvalorizar uma questão que a todos diz respeito, talvez seja dos meus olhos, do meu estado de espirito, mas já apanhei um pouco de tudo o que tem sido as minhas lutas ao longo das últimas duas décadas, relembro que o propósito da minha viagem é o programa nacional de coesão, territorial no caso concreto, mas consegue-se fazer isto sem pessoas? 

Voltando ao sorriso do vizinho, acompanhou-me até à Baixa-Chiado, sim é possível no meio de uma multidão ter vizinhos e conversar.

Ele continuou a viagem, mas as história de uma vida carregada de tensões e de pouca saúde acompanham-me, retive a brutalidade da última coisa que me disse…”são os meus netos que me fazem continuar a lutar e a ter forças para todos os dias me levantar”. 

Que lição esta! Ha vidas que insistem em não seguir pelos carris certos. 

Já na rua, maravilhosa na mistura de dialectos, cores e gente, bebe-se com a mesma facilidade um café com o Pessoa, como se compra um gelado ao Donald aqui corporizado pelo Fernando, ironias e contrastes…

Este, um homem comum como todos nós, ainda que parece algo estranho vê-lo no Mac. 

E este, um extraordinário homem das palavras e na nossa história, que tem na sua língua a verdadeira pátria. 

Prossegue a viagem e o desafio agora é ir do Camões ao Rato, caminhar faz bem em qualquer circunstância e as vistas são lindas e carregadas de estórias e história





Depois da paragem obrigatória no Parque dos Príncipes, Claro que passei pelo Paulo, embaixador da nossa terra, ao qual ainda não prestamos a total é devida homenagem.

Antes do destino lá temos uma hora de um lado e outra do outro, estes combinados estão certos quatro vezes por dia, quantas são as vezes que não acertamos tanto, quantas?



Já no Rato, realce para a boa forma física, as caminhadas fazem mesmo efeito, assim como bem faz a mensagem


Agora reunião, coesão, território, gentes…que nada faz sentido ou sequer se consegue mesmo fazer sem pessoas.


Para além da temática ser das favoritas, a oportunidade de rever amigos e amigas foi muito bom, a Jamila, o Nuno, a Hortense, o Eduardo Galamba, a Madalena, o Raul, mulheres e homens com quem cresci, aprendi e aprendo.

A viagem de regresso, novamente pela esquerda dá-me à vista a direita da vinda, mas a falta de bateria, a noite, o relato do glorioso e o cérebro a processar todo a informação é intervenções na reunião não deixam muito espaço para mais recordações…

Algures lá ao longe fica a terra que motiva estas viagens, um dia destes volto a viajar! 

Lisbon Revisited (1923)

Lisbon Revisited (1923)
  
NÃO: Não quero nada. 

Já disse que não quero nada. 
Não me venham com conclusões! 

A única conclusão é morrer. 
Não me tragam estéticas! 

Não me falem em moral! 
Tirem-me daqui a metafísica! 

Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas 

Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) — 

Das ciências, das artes, da civilização moderna! 
Que mal fiz eu aos deuses todos? 
Se têm a verdade, guardem-na! 
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica. 

Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo. 

Com todo o direito a sê-lo, ouviram? 
Não me macem, por amor de Deus! 
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável? 

Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa? 

Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade. 

Assim, como sou, tenham paciência! 

Vão para o diabo sem mim, 

Ou deixem-me ir sozinho para o diabo! 

Para que havemos de ir juntos? 
Não me peguem no braço! 

Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho. 

Já disse que sou sozinho! 

Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia! 
Ó céu azul — o mesmo da minha infância — 

Eterna verdade vazia e perfeita! 

Ó macio Tejo ancestral e mudo, 

Pequena verdade onde o céu se reflete! 

Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje! 

Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta. 
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo… 

E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho! 

Álvaro de Campos, in “Poemas”

Romantismo vs realidade

De tempos a tempos regressa à agenda mediática o tema das ciclovias, num concelho praticamente plano a utilização das bicicletas é desejável e saudável, mas temos condições para “sonhar” com ciclovias? O ordenamento do território permite? Têm as nossas estradas e ruas dimensão para tal? É justo criar meia dúzia de quilómetros de ciclovias num concelho que tem, arrisco, mil quilómetros de estradas e ruas? 

Há uns anos atrás, houve (Ana Cristina Ribeiro – Autarca BE) quem “prometesse” uma ciclovia a ligar todas as freguesias do concelho, há hoje que diga que Marinhais é “uma terra que merece ciclovias!” (Nuno Monteiro – Autarca CDU na Freguesia de Glória do Ribatejo e Granho)!

É simpático, soma likes nas redes sociais e gera empatia entre os praticantes do dar ao pedal, mas como fazer? E antes disso…é mesmo preciso? Há dezenas, centenas de pessoas que pelas nossas vilas e aldeias se deslocam na suas pasteleiras, bmx’s e modernas máquinas de BTT…meia dúzia de quilómetros promoviam mais utilização deste meio de transporte? 

Reflecti em voz alta, provocando reacção e acção, não conheço melhor forma de evoluirmos da demagogia (mesmo que involuntária) para propostas concretas.

Talvez..antes das ciclovias, haja meia dúzia ou uma dúzia de coisas que se possam fazer para qualificar a utilização da bicicleta, digo eu.

  

Reunião de Câmara Municipal de Salvaterra de Magos

Nota relevante: o executivo aprovou a manutenção das tarifas de Resíduos Sólidos Urbanos para 2016, mantendo assim um esforço de apoio às famílias e contrariando as recomendações da ERSAR (há uma fase de transição de cinco anos para a sua aplicação) para repercutir nos clientes os custos reais. Fica a preocupação de no futuro não aumentar as tarifas para o custo real num só ano, como aconteceu por exemplo com o tarifário das águas.