e assim vai o mundo…estranho!

cada vez mais estranho!

…eles lá vão conseguindo fechar as estradas, uma a uma lá conseguirão fecha-las todas! 
Ouvi há pouco que este tipo de ataques resulta do sucesso da prevenção…porque os terroristas não conseguem entrar nos perímetros de segurança. 

Não há sucesso algum…não é possível falar em sucesso quando um check in num qualquer aeroporto demora três ou quatros horas, não há sucesso se ao entrarmos num concerto somos todos tratados como suspeitos. Não há sucesso quando são cada vez mais as estradas fechadas e as pontes entre as pessoas derrubadas.

À “lei da bomba” já se percebeu que não há solução, sejam elas acionadas em coletes ou em mísseis…só um mundo mais justo, mais equitativo, mais tolerante e integrador pode ser solução! Como é que isto se consegue? Não sei…mas acredito no impacto global das acções locais!

Coisas cá minhas…

Agradecemos por tudo e por nada, umas vezes reconhecidos outras nem por isso. Por aqui não há obrigados nem obrigatórios, mas há reconhecimento e dedicação, há gente que como eu é amiga…ontem foi um grande dia, 42 não sendo um daqueles números redondos, confirmou o quanto confortável me sinto com eles e e convosco

Amigo

Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra amigo!

Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo

Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

Amigo (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!

Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.

Amigo é a solidão derrotada!

Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!

Alexandre O’Neill

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CIMLT – 30 anos

Uma “comunidade de afectos” como lhe chamou o Pedro Ribeiro, uma “partilha de ensinamentos e aprendizagens” como bem descreveu o Presidente Sérgio Carrinho, uma oportunidade de transformar problemas e dificuldades em desenvolvimento, valeu a pena? Claro que valeu a pena, ainda há um longo caminho a percorrer, nomeadamente nas áreas imateriais das políticas locais, mas estes foram só os primeiros trinta, quase metade dos quais de uma forma ou de outra tive o orgulho de participar.

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Viagens na minha terra (28 de Outubro)

(Entre texto corrido e parágrafos soltos, registo e relato pela primeira vez uma viagem na minha terra)

Hoje as viagens levam-me à capital, a idade do Discovery já não permite circulações lá pelo centro logo o meio de transporte escolhido foi o autocarro, onze euros e oitenta (ida e volta). 

São quase onze horas e na paragem, nada mudou…uns perguntam pela hora do transporte, outros queixam-se da falta de médico, das idas às cinco e até às quatro horas para o centro de saúde, mais adiante é o Sporting e o Jesus que estão em discussão. 

O objectivo da viagem é a participação numa reunião sobre o programa nacional de coesão territorial, uma ideia que em traços gerais projecta o desenvolvimento do país voltado para o Atlântico e para Espanha, ressalvo que desde a primeira moção do António Costa ao congresso do PS que tenho reservas sobre o enquadramento do Ribatejo neste desenvolvimento, que triste sina está de estar sempre suficientemente perto e ao mesmo tempo relativamente longe…

A viagem começa e recordo as dezenas, centenas de vezes que fiz este percurso de autocarro até aos 11 anos, antes de nos termos mudado de Benavente para Salvaterra de Magos, a Quinta do Ornelas, a Quinta do João Ramalho e da Tareca, a IDAL, a Vala Nova, o Sorraia, a estação…do lado esquerdo (vicio de condutor este que nos leva a ter sempre a mesma perspectiva de viagem) nada mudou a não ser a beleza dos espaços (ou talvez seja dos meus olhos e idade que já me leva a procurar, e felizmente encontrar, pormenores e detalhes que escapam a um miúdo. Mas, se à esquerda na mudou à direita piorou…fechou a estação, espaço de vida e de, muita poluição, parece hoje abandonado. Não é uma porta velha das que gosto, é sim um portão gigantesco mas carregado de história de e da vida, se há quem nem às paredes confesse estas tinham com toda a certeza centenas de amores, encontros e desencontros para contar. 

Ainda em Benavente a última paragem da vila, e paramos mesmo, é Santa Cruz, o meu destino das tais centenas e centenas de viagens entre Salvaterra de Magos e Benavente.

Ali, por cima das bifanas, vivi e cresci, a melhor recordação que tenho destes tempos são as da vizinha Clotilde e do Zé Maria que tinha um boca de sapo espectacular. 

Daqui para a frente Samora Correia, Porto Alto, Vila Franca e Lisboa, foi viagem que também fizemos muito, mas não tenho alcance de memória, aos dezoito meses fui para a minha terra, mas continuamos a viver em Lisboa até 1979.
Não sei se destas viagens e de outras, olho para o arranha céus, o primeiro numa aldeia que hoje já é cidade, modéstia à parte com um bom contributo meu, com a ajuda do Nelson Baltazar foi possível consensualizar com o Vasco Cunha e com a Luisa Mesquita a elevação a cidade de Samora Correia, sem esquecer a Ana Casquinha e o António Louro, que me deram as bases do conhecimento sobre esta terra, que como é óbvio também a sinto um pouco como minha.

Entretanto passamos pelos bombeiros, hoje já em condições excelentes, não sem antes homens como o Ferro tenham tido uma luta quase titânica. 

No autocarro, também, nada de novo…a vizinha do lado dá ao pé ao som da música que lhe entra em altos berros pelos ouvidos a dentro, a vizinha da frente lê um livro, os vizinhos de trás dormem, lá mais à frente usam-se agulhas para tricotar, renda e pano para fazer bicos, ou outra técnica qualquer.

E lá vamos nós a caminho de Vila Franca, entre a Leziria e o Estuário de Tejo é até perder de vista…

…vista que traz está cidade que é Vila, Franca diga-se de passagem, e traz também a incompreensão deste desenvolvimento carregado de betão e de costas voltadas para o rio.

Da ponte, uma das mais velhas que nos une, recordo as histórias do Antão mais velho, Mário claro está (somos todos: Mário, Joaquim Mário, Nuno Mário e João Mário a seguir há Maria claro está) sobre as idas para a tropa de bicicleta e as longas esperas pelos carros os únicos que faziam a embarcação de passagem navegar.
E acaba aqui o meu, nosso, Ribatejo, na margem norte do Tejo, apesar de mais à frente ainda haver Ribatejo na designação de Alverca é aqui que ele acaba, imponente e histórico! 

Agora até ao Campo Grande é A1 e 2. Circular, alcatrão e betão sem história, sem raizes, sempre cheio de gente sem rosto, que passam por nós e pelas quais passamos sem olhar, sem ver. Ainda que se passe pelo Aeroporto, Rotunda do Relógio, Avenida Gago Coutinho, Avenida Estados Unidos da América, Entrecampos e, e, e…escapa-me agora o nome da via que nos leva até ao último reduto dos lagartos que às vezes, poucas felizmente, são leões. 

Se as viagens são descobertas, sim é possível fazer uma viagem Salvaterra de Magos – Lisboa sem fumar. 

Agora, vamos lá então descobrir as “confusões” do metro…so far so good, cartão Viva carregado, o meu e o do vizinho, que lamentando-se dos tremeliques das mãos e de lagrima do olho me pediu que o ajudasse…então meu amigo já não consegue enfiar? Perguntei-lhe na esperança de ver um sorriso, “seu malandro” respondeu-me ele já de sorriso, talvez assistindo à cena a seguir uma jovem mãe, com um carrão, sim não era um carrinho de bebé, era enorme, pede ajuda para subir as escadas, os elevadores não funcionam…que porra está, nada funciona quando tem de funcionar, reduzir a questão das acessibilidades e mobilidade aos cidadãos portadores de deficiente é desvalorizar uma questão que a todos diz respeito, talvez seja dos meus olhos, do meu estado de espirito, mas já apanhei um pouco de tudo o que tem sido as minhas lutas ao longo das últimas duas décadas, relembro que o propósito da minha viagem é o programa nacional de coesão, territorial no caso concreto, mas consegue-se fazer isto sem pessoas? 

Voltando ao sorriso do vizinho, acompanhou-me até à Baixa-Chiado, sim é possível no meio de uma multidão ter vizinhos e conversar.

Ele continuou a viagem, mas as história de uma vida carregada de tensões e de pouca saúde acompanham-me, retive a brutalidade da última coisa que me disse…”são os meus netos que me fazem continuar a lutar e a ter forças para todos os dias me levantar”. 

Que lição esta! Ha vidas que insistem em não seguir pelos carris certos. 

Já na rua, maravilhosa na mistura de dialectos, cores e gente, bebe-se com a mesma facilidade um café com o Pessoa, como se compra um gelado ao Donald aqui corporizado pelo Fernando, ironias e contrastes…

Este, um homem comum como todos nós, ainda que parece algo estranho vê-lo no Mac. 

E este, um extraordinário homem das palavras e na nossa história, que tem na sua língua a verdadeira pátria. 

Prossegue a viagem e o desafio agora é ir do Camões ao Rato, caminhar faz bem em qualquer circunstância e as vistas são lindas e carregadas de estórias e história





Depois da paragem obrigatória no Parque dos Príncipes, Claro que passei pelo Paulo, embaixador da nossa terra, ao qual ainda não prestamos a total é devida homenagem.

Antes do destino lá temos uma hora de um lado e outra do outro, estes combinados estão certos quatro vezes por dia, quantas são as vezes que não acertamos tanto, quantas?



Já no Rato, realce para a boa forma física, as caminhadas fazem mesmo efeito, assim como bem faz a mensagem


Agora reunião, coesão, território, gentes…que nada faz sentido ou sequer se consegue mesmo fazer sem pessoas.


Para além da temática ser das favoritas, a oportunidade de rever amigos e amigas foi muito bom, a Jamila, o Nuno, a Hortense, o Eduardo Galamba, a Madalena, o Raul, mulheres e homens com quem cresci, aprendi e aprendo.

A viagem de regresso, novamente pela esquerda dá-me à vista a direita da vinda, mas a falta de bateria, a noite, o relato do glorioso e o cérebro a processar todo a informação é intervenções na reunião não deixam muito espaço para mais recordações…

Algures lá ao longe fica a terra que motiva estas viagens, um dia destes volto a viajar! 

Pelo Tejo Vai-se para o Mundo

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Pelo Tejo Vai-se para o Mundo

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia. 
O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.
O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele. 

Alberto Caeiro, in “O Guardador de Rebanhos – Poema XX”