Pontes & Muros (21 novembro)

É cada vez mais difícil perceber o mundo, é cada vez mais difícil perceber as pessoas…na era do virtual a realidade é tão brutal que o mundo escolheu como expressão do ano a “pós verdade” à qual permito-me acrescentar outra: ”verificação dos factos”.

Nunca como hoje tivemos acesso a tanta informação, nunca como hoje foi tão fácil controlar o fluxo de “verdades” que chegam às pessoas.

Nunca como hoje tão poucos condicionaram tantos… durante tanto tempo, somos cada vez mais controlados e apercebendo-nos disso…nada fazemos, resignamo-nos e esperamos que seja um qualquer vizinho nosso a preocupar-se com as coisas.

Hoje é simples verificar os factos, confirmar a verdade, ver, ouvir, reflectir e formular opinião…mas sendo simples… é cada vez mais fácil deixarmos para os outros estes exercícios, resignados à velocidade do dia-a-dia não temos tempo para mais… mesmo não deixando de nos surpreender e desiludir com os resultados finais…uma vez, duas vezes, outra e mais outra vez…deixamos sempre para os outros a verificação dos factos, a formulação de opinião e o poder da decisão.

“pós-verdade” é um adjectivo que se aplica à circunstância em que os factos objectivos são menos importantes na formação da opinião pública do que os apelos do foro emocional”, entretemo-nos hoje tanto com as estórias que esquecemos a história…ouvir um português a defender a saída da Inglaterra da União Europeia porque é preciso travar a livre circulação de pessoas, ouvir um português a defender a construção de um muro para impedir a entrada de imigrantes no Estados Unidos…são provavelmente a melhor forma que encontro de definir a “pós-verdade” em que vivemos!

Estaria aquele português na Inglaterra se a livre circulação de cidadãos europeus não existisse? Estaria aquele português nos Estados Unidos se a política de imigração americana fosse fechar as portas? A verdade, pura, dura e cruel… é que não estavam, a verdade, pura, dura e cruel é que são emigrantes…que tiveram uma oportunidade que não querem dar aos outros!

Provavelmente, com todos os “pós-verdades”, “verificação de factos”, e “freios e contrapesos”, nunca Brecht teve tanta razão, ainda que com outro enquadramento histórico.

Primeiro levaram os negros

Mas não me importei com isso

Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários

Mas não me importei com isso

Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis

Mas não me importei com isso

Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados

Mas como tenho emprego

Também não me importei

Agora levam-me a mim

Mas já é tarde

Como eu não me importei com ninguém

Ninguém se importa comigo

Com ele termino…importando-me, inquietando-me!

Até para a semana com mais pontes e, menos, muros

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