Nunca passei por ele sem dizer “obrigado”

O mais dele? A graça, talvez. Quando rematava no ar uma perna era seta apontada, a outra partia-se pelo joelho, colando o calcanhar à coxa, o braço direito prolongava a nuca e o esquerdo atravessava o peito. No campo, essa beleza, só adivinhada. Tal como foi necessária a invenção da fotografia para saber como os cavalos galopam, só no dia seguinte, nos jornais, nos dávamos conta da estatueta bela que ele foi. Mas o mais, o mais mesmo, foi outra coisa: o silêncio. Nos livres, ele punha a bola no chão sempre com solenidade. Recuava muito, como um maestro prevenindo a atenção devida. E o estádio calava. Esse silêncio nunca mais o esqueço… Embora o mais, mesmo, mesmo, talvez fosse a gentileza. A minutos do fim, empatados numa final em Wembley contra o Manchester, 1-1, ele passou por três defesas, entrou na área e disparou. Mas o guarda-redes Alex Stepney fez a defesa da sua vida. Stepney contou, ontem, que ao repor a bola em jogo deu-se conta de uma figura difusa que, a seu lado, o aplaudia – era ele (que não seria campeão por causa daquela defesa). Mas se querem saber o maior mais de tudo dele, foi o denodo, o querer. Já o disse: ponham o vídeo do Portugal-Coreia do Norte como disciplina nos jardins-escola, ensinem-nos desde meninos a virar os azares da vida, 0-3, em conquista, 5-3. Depois, há o meu maizinho particular: Eusébio, minha lenda, filho do angolano Laurindo e da laurentina Elisa, tanto mundo, tanto nosso mundo…

Ferreira Fernandes – DN

(6 de Janeiro)

 

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s