Afinal não são todos iguais…

…ainda que com uns anos de atraso, reconhecer a seriedade das pessoas é um acto da mais elementar justiça!

Varridos do mapa

Temos uma relação estranha com o sector da construção. Odiamo-lo, mas somos dependentes dele – e ele de nós. Durante anos, abominámos a sua existência, desejámos até que fosse dizimado.

Esquecemo-nos de ter cuidado com o que desejávamos: o sector está a falir, inteiro, de uma vez, como uma única peça de dominó, um monólito que desaba surdamente até estatelar-se no chão. As covas estão já abertas nos cemitérios: os balanços dos bancos. Mas a abstinência vai sentir-se em todo lado. Nos fornecedores. No desemprego. Nos partidos que financiam. A Mota-Engil é para já a única que se safa mas da Teixeira Duarte para baixo, não resta tijolo sobre tijolo.

O alerta foi dado este fim-de-semana no “Expresso” por Vera Pires Coelho, que liderou a Edifer até ao final: “Toda a indústria da construção pode ser varrida do mapa”. É uma entrevista rara, corajosa e de grande dignidade, porque a líder não se esconde, presta-se a explicar o fracasso. E cumpre um comportamento ético de vários anos, de uma família que não sangrou a empresa em dividendos e, ao contrário de outros, lutou até ao fim. É também uma entrevista cheia de lições. Como o problema de depender dos pagamentos de Angola e do repatriamento de capitais. Como a lição de que uma falência na construção arrasta mármores, tintas, ares condicionados, indústria cerâmica e por aí fora.

A transformação da economia implica uma fase de destruição. Com o desabar da construção, teremos desemprego, prejuízos, o Estado há-de receber concessões falidas, o País ficará com obras paradas, estradas em macadame, túneis sem lado de lá, pontes sem pontas, gruas sem ruas.

Esta falência é a de um modelo colectivo, de Governos que não conheciam outra forma de crescer ou de empregar, de câmaras que viviam das licenças, dos partidos financiados pela frente e por trás em descarada impunidade. Mas também de construtoras incapazes de não depender do Estado, de modernizar a sua mão-de-obra, de promover fusões, de desmamarem o vício da descapitalização perpétua.

Desde os estádios do Euro 2004 que a festa acabou. Mas o sector enganou-se a si mesmo quando, em 2007, foi apresentado o maior pacote de sempre de estradas e PPP, pelo Governo Sócrates e Campos. Todos viram nas concessões a saída feliz. Ainda houve aquisições, como a da Sopol ou a da Abrantina, falava-se de crescimento. Até faltar o financiamento. O capital alheio.

As pequenas empresas dependentes do imobiliário foram as primeiras a parar. Depois, as grandes. E entre as grandes, apenas duas estão a suportar a crise – e só uma delas é construtora, a Mota-Engil. A outra é a Teixeira Duarte, que de construção já pouco tem: vendeu a Cimpor, abateu a dívida, diversificou-se e, entre petróleos brasileiros e supermercados angolanos, ganhou uma nova vida. Aliada à Sonangol no BCP.

Quando Jorge Coelho foi contratado por António Mota, aqui vociferámos contra o escândalo, num editorial sugestivamente intitulado “O nojo”. Quatro anos depois, é preciso fazer a contrição: António Mota contratou sim “El Conejo” – Jorge Coelho é o seu Saviola, fez exactamente a internacionalização estratégica que disse que faria. A Mota-Engil foi de facto a construtora do regime, ganhou o melhor e foi salva do pior, mas criou o Plano B enquanto o Plano A prosperava. E Mota e Coelho não podem ser assim tão bons ao ponto de mandarem no Governo de Portugal, Moçambique, Angola, Polónia, Peru, Colômbia e de todos os outros países onde estão a ganhar obras. Pronto, elogio feito. Nem sempre os ex-políticos são apenas ex-políticos. Outros, como Fernando Gomes na Galp ou Alexandre Relvas na Logoplaste, constroem carreira de gestão com luz própria.

Abaixo das duas maiores, é o desastre iminente. A Soares da Costa está sem financiamentos e à espera de saber o seu destino. A Somague está submersa na problemática Sacyr, cujo lucro pago a Diogo Vaz Guedes entretanto se gastou. Lena, Abrantina, Opway, FDO, Monte Adriano está tudo na fila atrás da Edifer.

Aqui entra a Vallis, o fundo que absorveu a Edifer e que estuda fusões com outras empresas aflitas. Trata-se, na verdade, de um fundo de massa falida, um “bad bank” que pretende fazer a dissolução controlada de empresas: os accionistas perdem tudo, negoceia-se com a banca e iniciam-se fusões tentando salvar o que se pode. Pedro Gonçalves, o líder da Vallis, terá sucesso se fizer o difícil: transformar um conjunto de passivos num conjunto de activos. Aí reside a salvação dos despojos.

Este é um processo de transformação de um sector inteiro, que vai gerar desemprego, falências e perdas avultadas para a banca. Basta ver que, como o Negócios hoje noticia, 54% do crédito malparado em Portugal está hoje nas actividades de construção e imobiliário. E como hoje bem sabemos, tudo o que acontece à banca, acontece-nos a nós. Quer dizer, tudo não. Só as coisas más.

09 Abril 2012 | 23:30

Pedro Santos Guerreiro – psg@negocios.pt
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